LIMITES DA LINGUAGEM

Limites da Linguagem
"Aquilo de que não se pode falar, deve-se calar".
Ludwig Wittgenstein

sábado, 11 de outubro de 2014

ANÁLISE FRIA

            Artigo de Marco Antônio Villa   
O Brasil é um país fantástico. Nulidades são transformadas em gênios da noite para o dia. Uma eficaz máquina de propaganda faz milagres. Temos ao longo da nossa História diversos exemplos. O mais recente é Dilma Rousseff.
Surgiu no mundo político brasileiro há uma década. Durante o regime militar militou em grupos de luta armada, não se destacou entre as lideranças. Fez política no Rio Grande do Sul exercendo funções pouco expressivas. Tentou fazer pós graduação em Economia na Unicamp, mas acabou fracassando, não conseguiu sequer fazer um simples exame de qualificação de mestrado. Mesmo assim, durante anos foi apresentada como "doutora" em Economia. Quis se aventurar no mundo de negócios, mas também malogrou. Abriu em Porto Alegre uma lojinha de mercadorias populares, conhecidas como "de 1,99". Não deu certo. Teve logo de fechar as portas. Caminharia para a obscuridade se vivesse num país politicamente sério. Porém, para sorte dela, nasceu no Brasil. E depois de tantos fracassos, acabou premiada: virou Ministra de Minas e Energia. Lula disse que ficou impressionado porque numa reunião ela compareceu munida de um laptop. Ainda mais: apresentou um enorme volume de dados que, apesar de incompreensíveis, impressionaram favoravelmente o Presidente eleito. Foi nesse cenário, digno de O Homem que Sabia Javanês, que Dilma passou pouco mais de dois anos no Ministério de Minas e Energia. Deixou como marca um absoluto vazio. Nada fez digno de registro. Mas, novamente foi promovida. Chegou à chefia da Casa Civil após a queda de José Dirceu, abatido pelo escândalo do mensalão. Cabe novamente a pergunta: por quê? Para o projeto continuísta do PT, a figura anódina de Dilma Rousseff caiu como uma luva. Mesmo não deixando em um quinquênio uma marca administrativa, um projeto, uma ideia, foi alçada a sucessora de Lula. Nesse momento, quando foi definida como a futura ocupante da cadeira presidencial, é que foi desenhado o figurino de gestora eficiente, de profunda conhecedora de economia e do Brasil, de uma técnica exemplar, durona, implacável e desinteressada de política. Como deveria ser uma Presidente, a primeira no imaginário popular. Deve ser reconhecido que os petistas são eficientes. A tarefa foi dura, muito dura. Dilma passou por uma cirurgia plástica, considerada essencial para, como disseram à época, dar um ar mais sereno e simpático à então candidata. Foi transformada em "mãe do PAC". Acompanhou Lula por todo o País. Para ela e só para ela, a campanha eleitoral começou em 2008. Cada ato do governo foi motivo para um evento público, sempre transformado em comício e com ampla cobertura da imprensa. Seu criador foi apresentando homeopaticamente as qualidades da criatura ao eleitorado. Mas, a enorme dificuldade de comunicação de Dilma acabou obrigando o criador a ser o seu tradutor, falando em nome dela e violando abertamente a legislação eleitoral. Com base numa ampla aliança eleitoral e no uso descarado da máquina governamental, venceu a eleição. Foi recebida com enorme boa vontade pela imprensa. A fábula da gestora eficiente, da administradora cuidadosa e da chefe implacável durante meses foi sendo repetida. Seu figurino recebeu o reforço, mais que necessário, de combatente da corrupção. Também, pudera: não há na História republicana nenhum caso de um Presidente que em dois anos de mandato tenha sido obrigado a demitir tantos Ministros acusados de atos lesivos ao interesse público. Com o esgotamento do modelo de desenvolvimento criado no final do século 20 e um quadro econômico internacional extremamente complexo, a Presidente teve de começar a viver no mundo real. E aí a figuração começou a mostrar suas fraquezas. O crescimento do produto interno bruto (PIB) de 7,5% de 2010, que foi um componente importante para a vitória eleitoral, logo não passou de uma recordação. Independentemente da ilusão do índice (em 2009 o crescimento foi negativo: -0,7%), apesar de todos os artifícios utilizados, em 2011 o crescimento foi de apenas 2,7%. Mas, para piorar, tudo indica que em 2012 não tenha passado de 1%. Foi o pior biênio dos tempos contemporâneos, só ficando à frente, na América do Sul, do Paraguai. A desindustrialização aprofundou-se de tal forma que em 2012 o setor cresceu negativamente: - 2,1%. O saldo da balança comercial caiu 35% em relação à 2011, o pior desempenho dos últimos dez anos, e em janeiro deste ano teve o maior saldo negativo em 24 anos. A inflação dá claros sinais de que está fugindo do controle. E a dívida pública federal disparou: chegou a R$ 2 trilhões.
As promessas eleitorais de 2010 nunca se materializaram. Os milhares de creches desmancharam-se no ar. O programa habitacional ficou notabilizado por acusações de corrupção. As obras de infraestrutura estão atrasadas e superfaturadas. Os bancos e empresas estatais transformaram-se em meros instrumentos políticos, a Petrobrás é a mais afetada pelo desvario dilmista. Não há contabilidade criativa suficiente para esconder o óbvio: o governo Dilma Rousseff é um fracasso. E pusilânime: abre o baú e recoloca velhas propostas como novos instrumentos de política econômica. É uma confissão de que não consegue pensar com originalidade. Nesse ritmo, logo veremos o Ministro Guido Mantega anunciar uma grande novidade para combater o aumento dos preços dos alimentos: a criação da Sunab.
Ah, o Brasil ainda vai cumprir seu ideal: ser uma grande Bruzundanga. Lá, na cruel ironia de Lima Barreto, a Constituição estabelecia que o Presidente "devia, unicamente saber ler e escrever; que nunca tivesse mostrado ou procurado mostrar que tinha alguma inteligência; que não tivesse vontade própria; que fosse, enfim, de uma mediocridade total".
 "Dilma, a Estela do terrorismo, a mais fraca dos Presidentes da República, desde 1889."  

Não é a política que faz o candidato virar ladrão. É o seu voto que faz o ladrão virar político.Não seja um deficiente cívico, faça a sua parte.
       Como cidadãos e contribuintes de tributos e de votos,Vamos nos mobilizar para o exercício saudável da cidadania.







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domingo, 28 de setembro de 2014

ELEIÇÕES e PRIMAVERA

A primavera em Porto Alegre começa com tempo ventoso. Pressente-se o futuro verão e um leve calafrio nos faz lembrar  o inverno  que se vai. 
A paisagem da capital,neste ano, ficou um pouco apagada com a quantidade de cavaletes  com propaganda  de candidatos.
- É! Estamos  às vésperas de eleições e o vento faz tremular as bandeiras agitadas por militantes pagos que anunciam seus diáfanos produtos: as promessas   dos políticos.
Vocês  repararam na fisionomia triste   e desconsolada destes  que para ganharem uns trocados ficam nas esquinas agitando bandeiras?
Assim são as eleições no Brasil. A população apática  desconhece e finge não ver este arco íris de cores, siglas e números. E assim nos preparamos para no dia  5 próximo obrigatoriamente ir depositar, digitar é o termo mais correto, nosso voto nas  urnas.
O descaso reflete a raiva contra os políticos e suas promessas, os escândalos de  corrupção.O ar das ruas nos dá uma  sensação de manada. Ninguém vai para o  matadouro com alegria.   Sempre é bom relembrar Foucault, o filósofo das prisões, dos manicômio onde escondemos os lúcidos quando dizia  que  "todo poder para ser poder tem que de alguma forma mentir".
Mas se  a política é necessária me permito neste retorno a um blog pouco lido  citar Confúcio sobre o  que justifica a  política.
"Alguém perguntou a Kongzi:"Por que o senhor não faz política?"
O Mestre disse: "Os Documentos falam  sobra a filialidade: "se alguém for filial, para com seus pais, e amical para com seus irmãos tais virtudes se transmitirão à política"Se isto também é fazer política por que se teria de entrar para a política?"

quinta-feira, 10 de julho de 2014

OS DESILUDIDOS DA REPÚBLICA

MARCO ANTONIO VILLA
A proximidade das eleições permite uma breve reflexão sobre o processo de formação de uma cultura política democrática no Brasil. A República nasceu de um golpe militar. A participação popular nos acontecimentos de 15 de novembro de 1889 foi nula. O novo regime nasceu velho. Acabou interrompendo a possibilidade de um Terceiro Reinado reformista e modernizador, tendo à frente Isabel como rainha e chefe de Estado e com os amplos poderes concedidos pela Constituição de 1824.
A nova ordem foi edificada para impedir o reformismo advogado por Joaquim Nabuco, Visconde de Taunay e André Rebouças, que incluía, inclusive, uma alteração no regime de propriedade da terra. Os republicanos da propaganda — aqueles que entre 1870, data do Manifesto, e 1889, divulgaram a ideia republicana em atos públicos, jornais, panfletos e livros — acabaram excluídos do novo regime. Júlio Ribeiro, Silva Jardim e Lopes Trovão, só para recordar alguns nomes, foram relegados a plano secundário, considerados meros agitadores.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O QUE É UM CLÁSSICO

Ítalo Calvino em "Por que Ler os Clássicos" relaciona vários preceitos que podem caraterizar um livro clássico. São os livros definitivos que nunca cansamos de reler e cada leitura é uma nova descoberta.
Assim: 
1- Os clássicos são aqueles livros dos quais em geral, se ouve dizer: "estou relendo" e "
nunca estou lendo".
2- Um  clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha de dizer.
3-Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos;mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.
E assim vai...
Para mim a definição mais simples é aquela: "Clássico é um livro que suporta uma segunda leitura com surpresa, com maravilhamento e com novas descobertas estéticas, na trama e na complexidade dos personagens.
Como leitor compulsivo, vítima desta neurose pela palavra escrita, pela palavra que nos fala Sartre tenho relido meus livros prediletos. Também livros que numa primeira leitura apesar de serem clássicos não me moveram ao entusiasmo nas primeira leitura na releitura me levaram ao entusiasmo. Modifiquei eu, evolui no meu  gosto; sou capaz de apreciar como  um vinho melhor, apreciar a estranheza e o inusitado.
Pois dos clássicos que resistiram a segunda leitura estão os de Thomas Mann, Proust,Virgínia Woolf, Henry James, todo o Machado de Assis, o Tolstoi de Ana karenina, Dostoievski e tantos outros.
Mas tem os que na primeira leitura não me atingiram e que hoje modifiquei completamente meu conceito e hoje coloco como grandes clássicos.
Dentre eles cito o Grande Gatsby de F.Scott Fitzgerald e Pais e Filhos de Ivan Turgeniev.Que grandes livros!!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

ACLAMAÇÃO DE FELIPE VI O NOVO REI DA ESPANHA



A Espanha escreveu hoje uma belíssima página da sua recente história democrática: a sucessão normal por abdicação do rei Dom  Juan Carlos I a seu filho Felipe, que na longa tradição da monarquia espanhola, que se perde em mil anos, terá por nome Felipe VI. Só nisto vemos o papel da tradição.Muito bem preparado o  novo rei;venceu todas as etapas de uma educação humanística e castrense. Em seu papel constitucional atuará como árbitro moderador, conselheiro e representante da nação. Sua função será deixar jogar o jogo político e dar sempre o exemplo de dedicação e trabalho para promover os valores de um país milenar,  plural multilingüe e com desafios enormes. Ao  contrário do que diz a imprensa caolha a monarquia espanhola, como todas as europeias é popular e não se pensa mudar para a república.A monarquia não é uma excrescência histórica é alma e a unidade de uma nação.Não se vaia um rei porque está acima das lutas partidárias.Seu papel é dar exemplo e ter o compromisso de toda uma vida o serviço à pátria. Cabe ressaltar, por último o papel crucial do rei abdicante na redemocratização espanhola e o papel preponderante da Rainha Sofia que nos 39 anos de reinado de Don Juan Carlos I foi uma figura chave pela popularidade, discrição e papel de educadora do príncipe, hoje rei Dom Felipe VI.



VIVA A ESPANHA!
VIVA FELIPE VI!

terça-feira, 10 de junho de 2014

A MONARQUIA DA ESPANHA- Artigo de Ricardo Setti

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Manifestação em Madri pede um referendo e a instalação da república. Perto de outras, gigantescas, as atuais manifestações são pequenas — e um percentual minúsculo dos espanhóis considera a monarquia como um dos principais problemas do país (Foto: Jose Luis Roca)
Milhares de pessoas têm saído às ruas da Espanha após a abdicação do Rei Juan Carlos em favor de seu filho, o príncipe Felipe, pedindo o fim da monarquia e a instauração de uma república, por meio de um referendo.
Manifestações já aconteceram em meia centena de cidades, e ainda deverão continuar, muito provavelmente, até o próximo dia 18, quando o atual príncipe das Astúrias será proclamado como Rei Felipe VI pelas Cortes, o Parlamento espanhol, sua mulher, Letícia, como Rainha.
Tenho passado muito tempo na Espanha de uma década para cá, devido a questões familiares. Com base nisso, no muito que li, vi e ouvi em muitos anos farei agora uma previsão arriscada, mas que assumo, sobre o que vai acontecer: NADA.
Para começar, manifestações como as que vêm ocorrendo, de 10 ou 20 mil pessoas, significam muito pouco num país com um povo de longa trajetória combativa. O movimento dos “indignados” em 2011 — que era uma espécie de “contra tudo isso que aí está”, e passou por cima de partidos políticos e correntes ideológicas — mobilizou massas de milhões de pessoas em pelo menos duzentas cidades.
Por mais que a monarquia seja uma excrescência, uma excentricidade, algo inteiramente fora do tempo, a realidade é que vários dos países mais ricos e democráticos do mundo vivem sob uma monarquia constitucional: o Reino Unido, naturalmente, mas também a Holanda, a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, a Bélgica, o Japão…

A rendição do último sultão de Granada, Boabdil (à esq.), diante dos reis católicos Fernando e Isabel (Reprodução de quadro do pintor Francisco Pradilla)
No caso da Espanha, o país vive sob uma monarquia virtualmente desde que existe como tal — após a expulsão definitiva dos mouros da Península Ibérica, com a rendição do califa de Granada, Boabdil, às forças dos “reis católicos” Fernando e Isabel, a 2 de janeiro de 1492, e a formação do Reino de Espanha. Os interregnos republicanos foram mínimos ao longo desses 522 anos: a I República durou menos de dois anos (de fevereiro de 1873 a dezembro de 1874) e, após a abdicação do Rei Alfonso XIII, avô de  Juan Carlos, em abril de 1931, apenas até o final da Guerra Civil, em abril de 1939.
Antes de mais nada, cabe relembrar que o assunto não é, de forma alguma, prioridade para a sociedade espanhola — longe disso. As manifestações nas ruas, que já diminuíram de intensidade, não refletem a opinião pública. Sim, é verdade que a empresa especializada Metroscopia acaba de publicar uma pesquisa de opinião pública revelando que 62% dos espanhóis concordam em que deve haver uma consulta popular “em algum momento” sobre se o povo deseja continuar com a monarquia.
Mas outra sondagem recém-divulgada pelo respeitado Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS) mostra que um percentual ínfimo dos cidadãos — miseráveis 0,2% — inclui a monarquia entre os principais problemas da Espanha, contra sonoros 80,8% que consideram a questão mais grave o desemprego, 35,5% a corrupção e 28,6% os problemas econômicos.
Cabem outras observações. As elites não desgostam da monarquia — pelo contrário. O Partido Popular, no poder desde dezembro de 2011, com folgadíssima maioria absoluta no Congresso de Deputados e no Senado, não é ao pé da letra monarquista, mas sente-se muito confortável com a Coroa. Tanto é que, esta semana, o presidente de governo Mariano Rajoy declarou que a monarquia espanhola tem um apoio “muito majoritário” da sociedade e o futuro rei, Felipe VI, “tem grande apoio popular”, advertindo ainda que quem pretender alterar o sistema político tem que “respeitar o império da lei”.
E aí, “respeitar o império da lei”, existe um paredão constitucional difícil de ultrapassar. O artigo 168 da Constituição da Espanha — aprovada, de forma inédita, por consenso em 1978, inclusive pelo hoje extinto Partido Comunista e pelos partidos nacionalistas regionais — prevê que qualquer alteração na forma de governo deve obter a aprovação de dois terços dos 350 deputados e dos 266 senadores, contra os usuais três quintos para reformar outros itens.
Mais: em tal caso, as Cortes — o Parlamento — serão imediatamente dissolvidas após a reforma, e o novo Parlamento eleito deverá novamente examinar a reforma aprovada, e igualmente dar seu “sim” por dois terços dos membros. Finalmente, o texto ainda precisaria ser submetido a um referendo popular.
Um sinal de tácita concordância com a monarquia está o fato de que as diversas leis orgânicas (equivalentes às nossas leis complementares, que exigem aprovação de metade mais um dos integrantes de cada Casa do Parlamento) necessárias a formalizar a abdicação do Rei, a ascensão de Felipe ao trono e o papel  institucional que caberá ou não à atual Rainha Sofia, sem contar se o ex-Rei manterá ou não a imunidade judicial de que ainda desfruta, deverão receber os votos não apenas do PP, mas dos socialistas e de outros grupos, chegando a 86% dos deputados — percentual que poderá subir para mais de 90% com a possível concordância até de parte dos nacionalistas catalães.
A maioria dos nacionalistas bascos, em surpreendente decisão, não vão votar contra — limitar-se-ão à abstenção.
O principal problema da monarquia foi ter vindo à força, tecnicamente restaurada pelo ditador Francisco Franco em 1969, muito depois da vitória fascista na Guerra Civil iniciada com um levante militar contra a República em julho de 1936. Naquele 1969, ele designou o jovem Juan Carlos seu sucessor com o título de “príncipe de Espanha”. O ditador fizera um acordo, anos antes, com o pai do príncipe, dom Juan de Borbón, adversário acérrimo da ditadura, de forma a orientar a educação do menino de 10 anos que nascera e até então vivia no exílio em Roma.

Juan Carlos, junto a um pequeno grupo de garotos da elite espanhola, foi educado fora das escolas oficiais, em uma mansão isolada no interior do país, por preceptores designados por Franco, entre os quais, curiosamente, havia intelectuais liberais, alguns dos quais o auxiliariam, bem mais tarde, a restaurar a democracia.
Essa “origem maldita” foi devidamente limpa a partir do momento em que o Rei assumiu a chefia do Estado com a morte do ditador, em novembro de 1975. O jovem Rei herdou poderes absolutos, mas aos poucos foi se livrando da camisa de força que o franquismo impusera a ele — uma série de mecanismos o impedia de substituir figuras-chave do regime, a começar do chefe de governo, que ele constrangeu a renunciar dando uma entrevista sobre sua incompetência para a hoje extinta revista norte-americana Newsweek –, trouxe para chefiar o governo um ex-dirigente da TV pública de quem se aproximara, Adolfo Suárez, então com 42 anos, e com ele iniciou um processo de liberalização que incluiu a antes inimaginável auto-dissolução das Cortes franquistas.
Seguiram-se eleições diretas, liberdade de imprensa, liberdade sindical, volta dos exilados, uma Constituinte e uma Constituição muito avançada, aprovada inclusive pelo Partido Comunista e pelo Partido Socialista Operário Espanhol, à época bastante mais à esquerda do que é hoje.
Por consenso, resolveu-se manter a monarquia, agora com poderes limitados e em grande parte simbólicos — com exceção do comando supremo das Forças Armadas, que cabe ao Rei, cuja formação incluiu cursar e concluir as academias militares do Exército, da Marinha e da Força Aérea.
Posteriormente, a Carta viu-se aprovada por 87,8% dos votantes em referendo.
O intenso e discreto trabalho do Rei em favor da democracia viu-se coroado com sua firme atitude contra o golpe de Estado tentado por um grupo de militares e integrantes da Guarda Civil em fevereiro de 1981. Da mesma forma, a monarquia espanhola é frugal: a Casa Real espanhola custa algo como 8 milhões de euros por ano (pouco mais de 24 milhões de reais), contra 46,6 milhões da britânica, 40 milhões da holandesa, 28 da Noruega, 12 milhões na Dinamarca e Suécia.
Segundo informações da direção do PP, em comparação a Presidência da Itália gasta 228 milhões de euros anuais, a da França, 113 milhões, a da Alemanha 20 milhões e a de Portugal 16 milhões.

O Rei não dispõe de um grande patrimônio pessoal, e nele não se inclui nenhum castelo ou palácio. O Palácio de la Zarzuela, residência oficial, é edifício público — o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, hóspede frequente, o descreveu certa vez como “semelhante a uma casa de fazenda do Brasil” –, e o espetacular Palácio Real, onde se realizam algumas cerimônias públicas, é um museu.
O belo e agradável palácio de Marivent, em Palma de Mallorca, onde a família real passa férias de verão, também integra o patrimônio do país.
O bem mais valioso do que poderia ser o patrimônio real, o iate Fortuna, que Juan Carlos ganhou de presente dos empresários das Ilhas Baleares por sempre passar em Mallorca, uma delas, suas férias de verão, o Rei transferiu para o patrimônio público, e ele terminou sendo entregue há dois anos à Fundação Turística e Cultural das Islas Baleares (Fundatur). Custou 18 milhões de euros e, rebatizado Foners, está à venda por 8 milhões.
O príncipe Felipe, futuro Rei Felipe VI, com a mulher, Letizia, e as filhas Sofia (esq.) e Leonor (Foto: heraldo.es)
O papel do Rei e seu estilo relativamente modesto de vida levou muitos espanhóis — alguns dos quais das regiões fortemente nacionalistas Catalunha e País Basco — a se declararem, como tantas vezes ouvi, “não monarquista, mas juancarlista“. Seu prestígio desabou com o famoso episódio da caçada de elefantes na África, viagem durante a qual foi acompanhado por uma bela princesa alemã 30 anos mais jovem com o qual mantém uma relação próxima há alguns anos.
Por isso, caberá ao novo Rei conquistar a confiança dos espanhóis com sua atuação. Felipe tem condições para isso. É extremamente preparado: estudou na mesma escola de Madri frequentada hoje por suas duas filhas, Leonor e Sofia, fez o colegial no Canadá e, posteriormente, formou-se em Direito na Universidade Autônoma de Madri, realizou especializações em economia e obteve um mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos.
Ostenta um casamento harmonioso com a ex-jornalista Letícia Ortiz e jamais foi alvo de qualquer notícia constrangedora em sua vida adulta — sendo que a imprensa de fofocas da Espanha é uma das mais ativas e maldosas do planeta. Poliglota, desempenha missões especiais há anos e tem bom relacionamento com dirigentes de numerosos países.
“A monarquia sobreviverá enquanto continuar sendo útil aos cidadãos dos seus respectivos países”, escreveu o respeitado jornalista Juan Luis Cebrian, ex-fundador e hoje presidente da empresa de mídia que edita o jornal El País, o mais importante da Espanha, que acrescentou: “Se este é o critério pelo qual a gestão do rei Juan Carlos teria de ser medida, seria fácil conceder ao monarca um excepcional cum laude“. Cebrian vê no príncipe condições de obter o respeito dos cidadãos.
O próprio jornal escreveu, em editorial publicado hoje, que “a grande maioria dos cidadãos apoia a abdicação de don Juan Carlos, não crê que sua renúncia produza qualquer incerteza e o príncipe Felipe lhes merece uma avaliação superior à do Rei”. De fato, a mesma pesquisa da empresa Metroscopia revela que, numa escala de 1 a 10, o príncipe merece “muito respeito” em grau 7,3. O Rei, aparentemente recuperando a imagem depois da abdicação, alcança nota 6,9.
De sua parte, o jornalista basco Iñaki Gabilongo, um dos mais conhecidos da TV espanhola, afirmou em comentário que a ideia de República vai depender do desempenho do novo Rei, mas também, entre outras medidas, da capacidade dos republicanos de apagar uma imagem ainda muito presente no imaginário espanhol — a de que República, devido ao período de grande agitação política ocorrido entre 1931 e 1936, ainda está muito associada à esquerda revolucionária e a instabilidade.
Por tudo isso, o caminho da Espanha rumo a uma mudança de sistema de governo é longo, muito longo — e incerto.O príncipe Felipe, futuro Rei Felipe VI, com a mulher, Letizia, e as filhas Sofia (esq.) e Leonor
A conferir.
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